

Sorriso Plástico
1

O pra sempre é uma ilusão.
Nunca existiu.
Ao menos, pra mim.
Sou apenas
um capítulo da vida de alguém.
O capítulo
que antecede
a história de fato.
A história
de quem,
realmente,
será a protagonista.
Não premeditei como você disse.
Não pode achar que seria capaz disso.
Não eu. Não com a gente. Só
Respiro fundo enquanto busco por algo que me ajude a digitar as próximas palavras. Um segundo pode se dilatar e virar dias, mesmo que só tenha se passado minutos.
Volto a escrever:
aconteceu. Sei que não tenho desculpas, que dizer “as coisas saíram do controle” é no mínimo ingenuidade. Mas eu juro: foi isso.
Nada foi sobre você, ou com você, como disse. Tudo foi
Meus dedos paralisam no ar. Como explicar o que se passou nos últimos meses, sem expor os sentimentos que venho mantendo guardados dentro de mim?
Somos eu e você, lembra?
Eu e você.
Apago.
Apago cada caractere digitado àquele e-mail. O ar me escapa como se a glote estivesse fechada, ainda que eu saiba não estar. Palavras não ditas causam mal-estar, ela alertou anos atrás. Palavras ditas também, percebo.
A vontade de voltar para cama, dormir e só acordar após tudo passar me assola, mesmo que não tenha dormido durante a noite, mesmo que não sinta sono. Só desânimo. Preciso de um cigarro. Minha pele pinica. Sei que não deveria fumar, mas, em vez de me concentrar na renúncia desse desejo, puxo uma cigarrilha do maço, enfileirado ao lado do celular, e abandono a cadeira à procura do isqueiro.
Um som fininho, agudo, esganiçado, chama minha atenção. A gata esparramada sobre os lençóis observa atenta minha movimentação. Os olhos azul-cetim esbugalhados brilham, como se me perguntassem “aonde. você. vai!?”. Só vou fumar, verbalizo, pegando o item que faltava na estante, na frente dos livros de história da arte.
Encostada na grade de ferro da sacada, ameaço acender o cigarro. Ameaço porque preciso abrir mão desse vício. Mas logo o fogo queima o tabaco e a fumaça, aos poucos, me preenche e me esvazia.
Os dentes vorazes, por não terem o que fazer, puxam as pelezinhas secas dos lábios entre uma tragada e outra, e as frases há pouco digitadas e apagadas latejam na cabeça. Cenas se sobrepõem umas às outras numa queda de braços. Palavras jogadas em mim, por ela, me atormentando no meio de tudo.
Me pergunto se renunciaria a cada beijo; a cada abraço; a cada carinho; a cada palavra dita, ouvida; a cada batida acelerada no peito; a cada arrepio na pele; para não viver a noite de ontem, para que ela não me dissesse as coisas que disse, para que não me odiasse. Cuidado, escuto uma voz feminina apreensiva lá embaixo, na praça, e logo meu olhar segue na direção. Há várias mulheres observando suas crias brincando. Duas meninas e um menino escalando de um ferro para o outro prendem meu interesse. Um calafrio passa por minha espinha, o estômago se revira. Desvio o olhar. Anseio por um gole de qualquer bebida, mas a garganta queima, a boca amarga com a bílis subindo do interior, quase transbordando. Engulo tudo, a agitação, comum desde ontem, tomando conta de mim.
Foco.
Sou boa nisso. Tento organizar as atividades e as entregas que tenho de fazer ao longo do dia. Começo pelo escritório em que sou apenas mais uma diante de tantos outros; depois listo as do meu negócio. Recém-negócio.
Suspiro.
Nada é de fato relevante. Tudo se resume a ela e ao e-mail que estou escrevendo, aos sentimentos dela, que me agitam, me paralisam. Mas não só os seus sentimentos. Tem os dele, os meus, e tudo que preciso fazer, que quero fazer, que não tenho certeza.
O papel branco que envolve o cigarro empretecendo lentamente, as cinzas surgindo, a fumaça se desprendendo sem que eu a absorva, parece um retrato da vida naquele instante.
minha cintura é abraçada. minhas costas se apoiam no corpo em volta de mim. meus lábios se curvam para cima. adoro quando faz isso, digo. adoro o seu cheiro, ruivinha. depois, um beijo de cada lado da nuca, outro no ombro desnudo. meus pelos se eriçam.
ajeito a alcinha da blusa, me virando de frente para ele. meus braços envolvem seu pescoço enquanto eu grudo nossas bocas. o beijo é lento, preguiçoso, daqueles que compartilhamos ao acordarmos juntos.
não tinha parado de fumar, ele pergunta, soltando minha cintura. as mãos em meus pulsos, a boca neles. um beijo em cada punho, antes de tomar o cigarro para si.
algumas tragadas e de volta para mim.
mais ou menos, respondo, ela é quem tem cismado; com isso e com o fato de que fiz uma promessa. claro, afirma, displicente, como tem acontecido, nos últimos tempos, sempre que menciono o nome dela. nunca fiz, alego. uhum. mas, às vezes, me sinto culpada por não cumprir.
ele sorri.
eu sei, é muito ridículo. ele gargalha. para!
o som contagiante cessa, os lábios abertos tornam-se semiabertos; as rugas no canto dos olhos que brilham dissolvem-se num olhar penetrante. ele parece tentar desvendar algo novo em mim. a sensação é de que estou nua. o tempo parece suspenso. então, tudo some, sobrando a fisionomia de sempre ao me dizer: não sinta, não é obrigada a agir conforme desejos que não são seus. depois, pega o cigarro de mim e com uma tragada, arremata, quase pensativo: você é muito maior do que as expectativas dos outros. eu levanto as sobrancelhas. as ruguinhas nos cantos dos olhos surgem de novo e ele brinca: é, eu sei, sou mais que um belo corpinho. ele pisca e o som claro e espontâneo da minha risada enche o ar. asseguro que nunca achei que fosse diferente e sou presenteada com mais um beijo.
nossos lábios se separam, o cigarro volta para minha mão.
aqui, só nós dois, vivendo como se o mundo lá fora não existisse, como se não houvesse ela e nenhuma preocupação, percebo que gosto dessa dinâmica muito mais que supunha. tá com fome? não tenho nada em casa, ia fazer compras, mas
O calor do fogo já no filtro do cigarro atinge meu dedo. Os apitos emitidos pelo celular avisam que estou atrasada para a primeira jornada do dia. Trago uma última vez e apago.
Prendo meus cabelos, mais revoltos que o normal, em um rabo de cavalo sem precisar me olhar no espelho. As palavras ditas por ela, na véspera, emergindo, me rasgando. Sua cuzona. Tiro a camiseta do pijama e o short. Puxo uma calça jeans escura da arara. Fala alguma coisa, porra. O cinto marrom, passo pelas arreatas da calça. Não acredito que perdi tanto tempo com você. Meus olhos se enchem de água. Não sei como a blusa branca vai parar em meu corpo, nem os scarpins que calçam os pés. Noto o blazer marfim nas mãos ao tirá-lo das costas de uma das duas cadeiras da mesa. Mesa que fica no centro do que prefiro chamar de tudo, menos do que de fato é, uma quitinete. Vocês, isso, nunca irá pra frente.
Não pisco. Se piscar, as lágrimas acumuladas rolarão por minhas sardas e não preciso de um rosto inchado para completar o look. Então, respiro fundo, contando de um até dez e de volta até um. Evito uma nova crise de choro, igual à da última noite.
O cheirinho na barriguinha peluda da gata, os beijos em sua cabeça, o abraço apertado, seguido de sua fuga atrapalhada, finaliza o processo de expurgar o que teima em querer vir.
Saio de casa apressada, mas ainda acompanhada das palavras dela. Como pude confiar em você? Um aperto no peito se manifesta. Tento me concentrar no que vejo: uma senhora de bengala passando sem pressa por mim, pisando em falso em um buraco, quase caindo; um casal de rapazes, à frente, de mãos dadas; um senhor engravatado, atravessando a rua; uma menininha correndo, tropeçando numa rachadura do cimento, a mãe, atrás, acudindo. As ruas de Botafogo são uma bosta.
Não sei como chego ao sinal. Você é tão idiota, tão burra, acha mesmo que é assim que vai ficar com ele?
Visito a lista de reparos que precisam ser feitos na via pública. Sonorização. A que indica se os pedestres podem ou não atravessar. Rampa. Uma inclinação entre a calçada e a rua. Pela visão periférica enxergo um senhor parar junto a mim. Observo-o. Há uma bengala que o ajuda a trilhar o caminho até o destino. Me pergunto se seria intromissão demais me oferecer como companhia para a travessia. Não termino de elencar os motivos de fazer ou não fazer, pois as palavras saem de minha boca: Quer ajuda? A mão esquerda do senhor paira sobre meu braço direito e caminhamos rumo ao outro lado da via. Como sabe que o sinal está aberto ou fechado para o pedestre, pergunto. Pela audição, minha filha.
Pela audição. A voz dela: Está me ouvindo?, você nunca. Obrigado, nem sempre tenho um raio de sol, assim, iluminando o dia, ainda mais pela manhã. Não consigo achar um pensamento coerente para o senhor que, logo, se despede e se vai. Permaneço parada. Raio de sol. Nada dentro de mim é minimamente um reflexo disso. Ao contrário. Meu céu se revela nebuloso demais, a ponto de irromper uma tempestade. Sonsa! Volto ao caminho para o escritório e para a minha lista.
Recapeamento da calçada. Declive. Desvio do buraco. Não consegue ver o tamanho da destruição?! Sinto falta de ar. Não existe mais nós! Paro de andar e respiro fundo, devagar. O peito expandido, a barriga acompanhando o movimento, repetidamente, até que volto a caminhar. A fechadura. A fechadura da porta de entrada do projeto sete cinco nove. Trava mágica.
Entro no prédio quase correndo. Passo o crachá na catraca de acesso ao hall para ter a passagem liberada. Nada. Uma ação simples, cotidiana, se torna uma missão impossível, já que pressiono umas sete vezes e a entrada não é autorizada. Tento não me levar pelo burburinho das pessoas atrás de mim, esperando para ultrapassarem o mesmo obstáculo que eu, mas o coração força passagem para sair pela boca. Na oitava, enfim, chego ao elevador, me aguardando, parado, com as portas abertas. Sorte? Um olá e um bom dia para o ascensorista. Pá, pum. Mecânicos. Cinco pessoas entram logo depois. Leio os números mudando no painel luminoso conforme ascendemos. Oito, nove. As portas se abrem no décimo.
A passos largos, cumprimento a todos no caminho da estação de trabalho. O desconforto me acompanhando pelo trajeto. A invisibilidade me assolando em meio a mudez, mognos, cadeiras e pessoas. Poucos bom-dia. O senhor de minutos atrás me vem à mente.
Me sento e respiro devagar. Raio de sol. Observo o monitor ligar. Escuto falas desconexas, de outras baias. Em segundos, a área de trabalho aparece na tela. E-mail profissional, agenda, vejo meus compromissos. São os mesmos que havia listado antes de me arrumar, com exceção de uma reunião. Como pude esquecer da reunião!?
Quer um café? Me assusto com uma das estagiárias invadindo meu espaço. O e-mail pessoal abre. Nego: Tomei em casa. Não tomei café. Minimizo o navegador. Agradeço. Sorrio. Mesmo sem vontade. Tento parecer sincera. Tenho alguns cursos intensivos em me tornar moranguinho, a bonequinha cabeçuda de plástico, de cabelos avermelhados, com o sorriso congelado. Meu sorriso plástico. Porém, sustento-o por pouco tempo. Então, pergunto sobre a planta baixa, trabalho destinado à estagiária, ao mesmo tempo que a menina me questiona se estou muito nervosa para a apresentação. Da reunião que esqueci.
A do salão ou a do frigorífico, a estagiária pergunta, ao mesmo tempo em que afirmo que sim; ainda que aquela apresentação não tenha passado por meus pensamentos nas últimas doze horas; mesmo que não consiga de fato pensar sobre o 3D da casa de veraneio da família que despontará no escritório a qualquer instante. A do salão, respondo. Também, confirma a estagiária, se referindo ao nervosismo. Fica tranquila, daremos conta. Mas são palavras esvaziadas de todos os significados. Não faço ideia se conseguirei demostrar com acuidade o que produzi. Me apresenta alguma coisa hoje, pergunto, aludindo à planta do salão.
Não sei o que a estagiária relata porque meu corpo parece ser cortado ao meio por uma lâmina afiada com o toque baixinho do celular. Meus olhos se fixam nele. O aparelho toca, toca, toca. As metades do meu coração, aos pulos.
Escuto meu nome. Me forço a mirar a menina, as partes de mim se colando, tentando voltar a ser uma só. Tudo bem, a estagiária pergunta. Confirmo que sim. A menina sorri e se afasta. Não há mais ligação.
Duas notificações. Uma da chamada perdida e algumas palavras no aplicativo. Não o abro. Se abrir, ficará registrado com os dois traços azuis que a mensagem foi lida. Dele.
Não roo as unhas há anos. Desde que vi como as dela ficavam bonitas, grandes, pintadas de vermelho. Mas ainda assim, elas param nos dentes e se mantém ali, me lembrando de que um dia as roí. Como agora.
Em vez de abrir o programa SketchUp e finalizar a modelagem em 3D dos quartos de hotel que trabalhava na véspera, ou rever o projeto para a reunião que terei em alguns minutos, volto ao e-mail pessoal. Clico nos rascunhos. Sem palavras desde que apaguei o que havia escrito mais cedo. Só com o endereço de e-mail dela no topo. É impossível evitar de pensar no que ela me disse. De sentir uma escuridão mofada me engolindo.
De um lado para o outro, verifico se há alguém me espreitando. Todos estão concentrados em suas próprias máquinas.
Digito:
Não foi premeditado.
Apago.
Fiz o que me pediu.
Apago.
Por que foi embora?
Apago.
Um gosto ferroso atinge minha língua. Meus dentes arrancam mais do que pele morta dos lábios. Dói ligeiramente.
não faz isso, ela ordena, caminhando até mim. minha melhor amiga não suporta me ver descontando nas pelezinhas secas. vai ficar com a boca toda estragada. dou de ombros. isso pode te dar câncer de pele, sua idiota. sorrio. até parece, penso. não exagera, é o que verbalizo. é a vez de ela dar de ombros e voltar para meu armário.
cabide por cabide, seus olhos verdes, lindos, tão mais lindos que os meus castanhos sem graça, observam as roupas como se nunca as houvessem visto. você precisa de um armário novo, ela comenta, essas roupas estão muito anos dois mil. me pergunto o que, entre tantas peças, a fez pensar nessa referência, até que ela desfaz o interesse e se afasta. o corpo preenchendo o espaço ao meu lado na cama, seus olhos diminutos, intensos, sondando os meus.
um ano, amor, declara; passa rápido, nem vai sentir minha falta. o sorrisinho cínico surge em seus lábios. viro os olhos. como se fosse possível não sofrer com sua ausência. deito a cabeça em seu colo e respiro fundo. não estou com humor para declarar meus sentimentos por ela como sempre faço.
ela chama meu nome. não há mais um tom de brincadeira na voz, ainda que os dedos continuem acariciando meu coro cabeludo, desalinhando as ondas de meus cabelos. devia estar feliz por mim. o desapontamento visível na voz. estou, digo, muito, sabe disso; é o máximo. paro de falar. o que vou fazer durante esse um ano?
não se preocupa, ela murmura, lendo meus pensamentos. você pode me visitar no fim do ano, quando ele for; vai estar inverno. e deixo escapar: como se fosse fácil assim. ei, fica tranquila, sou eu e você, lembra; daremos conta. eu sei, é que.
não será tão ruim assim, ela me corta. não é você quem vai ficar aqui, penso, mas o que digo é: desculpa, tô feliz por você, muito, muito mesmo. meu rosto se ilumina com um sorriso que parece perfeito à primeira vista, mas que carrega a tensão nos cantos dos lábios. tento manter os dentes à mostra, mesmo sabendo que o brilho nos olhos não acompanha a expressão. a moranguinho. meu sorriso plástico. ela não dá a impressão de reparar. vou ficar bem, asseguro, só me promete que vamos nos falar todos os dias como se estivesse aqui. claro, besta, nada irá mudar.
A voz dela invade meus pensamentos: Como não entende que tudo mudou? Passo a língua pelo lábio machucado e inspiro. As lágrimas novamente pedem licença para se jogarem ao mundo. Não concedo permissão, arregalando os olhos, proibindo que qualquer gotícula saia do canal lacrimal. Expiro. Na tela do computador estoura um pop-up avisando da primeira reunião do dia, a reunião. Tenho cinco minutos.
Penso em ir embora, mas um burburinho chama minha atenção. A família para quem farei a apresentação passa em direção ao que os espera. Desisto do e-mail, de pensar em qualquer coisa. Aperto Ctrl, Alt, Del, a tela se apaga. Não posso fugir. Só tenho de ir e dizer tudo que planejei para o projeto. De pé, respiro fundo. Os olhares em mim não ajudam a melhorar meu atual estado. Abandono o computador. Os sons dos meus saltos conflitam com as vozes na minha cabeça. Deslizo a porta da sala de conferências. Diferente de outras apresentações que já fiz, eu tento falar um simples bom dia, as palavras somem e eu congelo.